Arquivo da tag: São Paulo

São Paulo – Inusitado

Nascida em 1998 em San Francisco, nos Estados Unidos, a Bicicletada é uma reivindicação de ciclistas sobre seu espaço nas ruas. A postura de seus participantes é anticarros e de supervisão do (mau-)comportamento dos motoristas. Sem líderes definidos, cabe a cada um que se identifica com a Bicicletada ir educando motoristas no dia a dia para que o convívio entre bicicletas e carros no trânsito torne-se cada vez mais assimilável.

O movimento é inspirado no Critical Mass, evento que ocorre na última sexta-feira do mês em várias cidades do mundo, reunindo ciclistas num recorrido que comunica à comunidade e aos atuantes no trânsito que cada ciclista merece ser respeitado por ser um carro a menos nas ruas.

DSC04742

A crítica direta do movimento é a falta de espaços públicos destinados a veículos leves movidos à propulsão humana – a bicicleta é o principal deles, mas também cabem nessa definição skates, patinetes e patins. Há uma oposição clara aos automóveis no trânsito e nos estacionamentos públicos e privados, que também carecem ou esquecem do espaço destinado à bicicleta.

DSC04730

Recentemente, a Massa Crítica paulistana esteve no recém-inaugurado Shopping Vila Olímpia para reivindicar bicicletários. A repercussão na mídia foi grande e em menos de uma semana o shopping destinou postos exclusivos para as bicicletas.

Nesta sexta, dia 26 de fevereiro, não havia uma reivindicação específica. Houve o tradicional passeio partindo do início da Av. Paulista (próximo à Consolação) às 20h, horário e dia da semana onde o trânsito da cidade chega ao seu ápice.

DSC04726

Devia haver aproximadamente 200 cicilistas. Percorremos a Paulista em direção ao Paraíso, passamos pela Liberdade, chegamos à Praça de Sé, cruzamos o lindo Centro antigo e subimos pela Augusta.

Os gritos do passeio são como “menos carro, mais bicicletas”, “mais tubaína, menos gasolina”. Os ciclistas, aparentemente envolvidos, ajudam a segurar o trânsito para a passagem do grupo, educam motoristas e respeitam-se entre si.

DSC04721

Mas dentro de tudo isso que parece lindo, orquestrado e democrático, há uma contradição: pela primeira vez, vi o grupo desrespeitando pedestres e passantes sistematicamente. Além de, desta vez, a Massa Crítica ter ocupado algumas calçadas e ter pego algumas contra-mãos, houve baderna em pontos-de-ônibus onde trabalhadores exaustos tentavam pegar o transporte público coletivo para voltar para casa. Cheguei a ver cenas de ciclista que virou muito macho num grupo de 200 pessoas discutindo com motoristas de ônibus e dificultando a vida de quem usa o transporte público. A meu ver, ônibus está dentro da filosofia do movimento, que abomina o automóvel privado individual, mas tem discernimento suficiente para não demonizar qualquer coisa sobre rodas queimando gasolina no asfalto.

Quem prega o respeito individual usando o trânsito como palco deve respeitar. Não foi o que aconteceu nessa sexta. O ápice da dissincronia com a filosofia do movimento se deu na subida da Rua Augusta. As mulheres na calçadas eram cantadas grosseiramente por alguns ciclistas. Casais de namorados eram incomodados e alguns gays que iniciavam sua noitada foram ridicularizados. Enfim, era o movimento que se apropria do nome “Massa Crítica” e tem como inspiração uma cidade libertária e respeitosa como San Francisco reproduzindo o que a nossa sociedade tem de pior: chauvinismo e machismo.

DSC04718

Quem já leu A Revolução dos Bichos, de George Orwell, viu que todo grupo muito igualitário entre si, de princípios bons e, muitas vezes, anarquistas, quando está no poder, assume as identidades do grupo anterior: há líderes que se acham naturalmente no papel de assumir o controle da situação, há os que se impõem pela força, há os que se julgam mais inteligentes. E, a partir daí, acabou a igualdade. Tudo volta ao normal e à essência da nossa natureza, com cada ser humano exigindo o que acha ser de direito para si pela diferenciação que apresenta frente aos outros.

Pela falta de um trabalho institucional da Bicicletada, que não educa seus participantes, não resgata periodicamente seus objetivos, não educa os motoristas e nem explica para quem adere ao grupo na última sexta-feira do mês qual o propósito do passeio, o movimento vai ficando com cara de trânsito latino-americano, onde quem tem a melhor bicicleta corre mais, quem tem a bicicleta maior é mais machão, quem tá há mais tempo no grupo é mais agressivo.

Como nem tudo está perdido, na pizza após o passeio, foi possível compartilhar esse tipo de ideia com outras pessoas que estavam no movimento. A sorte é que vi que já existe uma resistência crítica a esta situação que parece estar saindo do controle. Afinal, quem prega respeito tem que, antes de tudo, respeitar.

Anúncios

São Paulo – Colombiano

011020101191

A colombiana Crepes and Waffles finalmente desembarcou no Brasil. Até aí, nada demais, já que pouca gente conhece a rede. Mas quem já foi para NY pelo voo baratinho da Avianca e fez escala em Bogotá certamente se deparou com o restaurante Crepes and Waffles no aeroporto.

O que tem de legal a Crepes and Waffles além de crepes, waffles, sopas e sorvetes maravilhosos? Sua missão e seus valores. A rede tem em sua maioria funcionárias mulheres, quase todas mães de família, que têm papel ativo na economia do lar. Ou seja: na visão da empresa, devem valorizar o trabalho, a produção cuidadosa dos alimentos e o modo de servir.
011020101196

O restaurante, no shopping Vila Olímpia, tem as mesmas características das lojas colombianas. Decoração convencional de madeira, luz quente, cadeiras confortáveis, balcão de sorvetes, máquinas de café e a equipe de atendimento e cozinha composta 100% por mulheres. Havia até uma madre colombiana supervisionando.

De entrada, pedimos o Elixir. É um suco de amêndoas com maçã verde, uva verde e uva roxa. Você puxa o suco pelo canudo e os olhos viram. Gelado e de sabor marcante de amêndoa temperada pelas outras frutas. Em seguida, pedi outro suco delicioso: banana, morango e laranja. Mais convencional, mas muito bem feito e preço muito justo: R$ 4,20.
011020101189

Fui direto na salada mediterrânea, fartamente servida com camarões, lulas, azeitonas, folhas e molho pesto + mostarda. Na minha mesa ainda pediram envoltini de queijo gouda com parma e crepe de frango indiano.
011020101193

A sobremesa era o melhor. Era tanta opção que pedimos o cardápio com fotos para ajudar. Para ajudar mais ainda, fomos até o balcão experimentar os sorvetes que acompanhavam os crepes ou waffles. Pedi um waffle de frutas vermelhas com um inigualável sorvete de amêndoas com pedaços de amêndoas. Preço ótimo também: R$ 8,20. Quase uma refeição. Na mesa, ainda vieram waffles de doce de leite com sorvete, chocolate com sorvete de brownie e miniwaffles de macadâmia, caramelho e café com sorvete. Tudo muito bom.
011020101195

Para encerrar, pedimos um café, que não era colombiano. Era Orfeu mesmo, mas fechou a mega-refeição por R$ 50,00 por cabeça. Muito justo pelo que comemos e bebemos.

O único porém da Crepes and Waffles no Brasil é que temos que ir até o shopping Vila Olímpia para desfrutar. Como não trabalho por perto, é uma funçãozinha. Mas valeu a pena.

Abaixo, uma foto de uma deliciosa sopa de tomate com banana na Crepes & Waffles de Bogotá, em Chapinero, lindo bairro em estilo clássico-inglês da metrópole andina. Em seguida, um crepe de cogumelos com espinafre, que não encontrei no cardápio do Brasil.

DSC01262

DSC01265

São Paulo – Inusitado

DSC00073

A fama de terra de oportunidades que o Brasil tem entre os seus irmãos latinos – somada à nossas fronteiras gigantes e problemáticas e aos governos que pouco desenvolvem os nossos vizinhos – faz com que recebamos ilegalmente artistas argentinos, contrabandistas paraguaios e mão de obra semi-escrava boliviana.

DSC00074

Estima-se que mais de 200 mil bolivianos vivem em São Paulo. Aqui na ilha em que habito entre Consolação, Pinheiros, Jardins e Paraíso, mal os vejo. Tive que finalmente tomar o metrô até a estação Armênia e procurar a feira que acontece aos sábados e domingos na rua Pedro Vicente, em frente ao número 600, para ver que existe um pequeno-grande centro de tradições bolivianas na nossa megalópole.

DSC00070

Eles mal falam português. Trabalham em fábricas de roupas tocadas por coreanos no Brás. Em condições sub-humanas, ao que parece. Nos fins de semana, aliviam a saudade da terra natal numa feira que vende deliciosas Saltenhas (empanadas bolivianas com recheio bem cremoso, que você deve cavar com uma colher antes de devorar a massa), empanadas (tipo as chilenas ou as argentinas), churrascos, incluindo um delicioso espeto de carne de coração de boi, pacotes de chás de coca, farinha de quinua e de amaranto.

DSC00072

As sobremesas deixam a desejar. Como quase todo país latino, a Bolívia não tem o paladar tão apurado como os mexicanos, os argentinos, os brasileiros e os chilenos. Doce na Bolívia é muuuuito doce. Salgado é muuuuito salgado.E saboroso (ou rico) é descendente direto de fritura. Então, se você for à feira, ou, quem sabe, à própria Bolívia, foque nos assados. Para beber, um ótimo chá gelado de pêssego desidratado com cravo. Tem em tudo quanto é barraca.

DSC00069

A feira também inclui as insuportáveis bandinhas bolivianas de música indígena, muita gente carregando garrafas de 2L de refrigerante para degustar enquanto dá uma volta pelo local, sorteios de pacotes para Santa Cruz de La Sierra – ou venda de pacotes de viagens – anunciados em alto falante, um banheiro imundo a R$ 0,50, tendas de cabeleireiros, DVDs piradas de artistas bolivianos e megapainéis com fotos de La Paz, Sucre, Copacabana, Lago Titikaka e Santa Cruz de La Sierra.

DSC00071

Enfim, é um passeio a uma pequena Bolívia. Até pra chegar à região atravessamos uma das partes mais feias, áridas e urbanóides de São Paulo. Mas as empanadas são tão boas, o churrasco de carne de coração de boi (anticucho) é tão saboroso e os bolivianos são tão amorosos que vale a pena esticar por lá. Brasileiros -acredite! – são a grande minoria, mas cresce a parcela de quem vai experimentar as tradições locais. De olho na clientela turística, algumas barracas de empanadas – como a famosa Don Carlos – já começam a cobrar o preço quase do bar Exquisito, na Consolação. Então, o aviso é o de sempre aos leitores deste blog long tail: corra e experimente antes que hype ou ganhe muito destaque na Revista Veja.

São Paulo – Parque

Um dos mais antigos, mais lindos e mais preservados parques de São Paulo é um desses lugares que agradeço por seguirem com fama discreta. Enquanto a mídia e a população celebram o árido, populoso e mal-vegetado Parque do Povo, na Vila Olímpia, o Parque da Água Branca, na Zona Oeste, segue exuberante e preservado.

O local já abrigou exposições agropecuárias. Hoje, ainda mantém seu aquário, uma pista de cavalo sem cavalos, galos e galinhas caminhando entre nós – repare nos galos seduzindo as galinhas – cocheiras, estábulos e um galpão para, nos fins de semana, receber uma grande feira de produtos orgânicos.

Na verdade, a feira não é nada demais. É como uma feira de bairro, só que com comida, atesta-se, 100% livre de agrotóxicos.

DSC00067

Gostoso mesmo é experimentar os salgados, pães, bolos e chocolate (quente ou frio) bem amargo vendidos no quiosque ao lado da feira. Tudo bem feitinho, bem simples, e, garantem, 100% orgânico. O preço é muito convidativo. Você pode tomar um café completo e à vontade por nem R$ 20,00. Ou pagar pelos quitutes individualmente enquanto come olhando pro lago.
DSC00068

São Paulo – Comer

Se você quer fazer de sua experiência em São Paulo ua memória gastronômica de cozinha de autor sem se sentir assaltado no D.O.M., o Maní é uma sugestão.

16032010210

Comandado pela ex modelo e atual chef Helena Rizzo, o Maní é a atual sensação da gastronomia paulistana. Também pudera: o ambiente, a comida e a supervisão individual de cada prato que vai à mesa pela chef faz da ida ao restaurante uma experiência deliciosa.

16032010211

O cardápio muda constantemente, mas alguns ingredientes se mantêm. Prove o peixe do dia cozido no tucupi com banana da terra e castanhas. Destaque também para o paladar inconfundível do risoto de beterraba e a textura original do levíssimo nhoque de mandioquinha, que não vem regado a molho cremoso como nas tratorias.

16032010212 (1)

Ponto alto, as sobremesas chegam lindas à mesa. ‘O Ovo’ é sorvete de gemada com espuma de coco e uma casquinha de coco queimado, tipo cocada. Há também sorvete de açaí com morango picado, marshmallow de açúcar mascavo, banana e gelatina de guaraná – sim, tudo junto.

16032010219

Mas talvez o mais inesquecível do restaurante seja o couvert de entrada. Um grande biscoito de polvilho bem salgadinho que você pode incrementar com sour cream ou queijo de cabra fresco.
DSC00064